segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Exposição Escultura Daniel Oliveira 2009


O ângulo de 23,5º tem sido deliberadamente encriptado em inúmeras obras ao longo da história. Sendo encontrado pela primeira vez na estrutura das grandes pirâmides do Egipto, este ângulo pode ser descoberto, vezes sem conta, em pinturas, esculturas e na arquitectura. Associado tanto ao imaginário simbólico da antiguidade, como da contemporaneidade. Surgindo frequentemente em obras subjacentes a temas como a morte, batalhas, guerra ou conflito. Podemos apenas especular quanto ao significado oculto deste ângulo e a intenção com que os artistas o utilizavam. Associado ao ângulo do eixo da terra, que também mede 32,5º, os primeiros filósofos gregos consideravam este ângulo como sendo uma condição irregular, graças ao qual se sucediam as estações do ano. No ciclo da vida, em que o conflito e a guerra são vistos como elementos intrínsecos da experiencia e da natureza humana, podemos interpretar este ângulo como sendo algo que resulta ou reflecte deste desvio do eixo da terra, simbolizando o desequilíbrio e desarmonia da condição humana. Recorrendo a ângulos de 23.5º na sua construção, a obra “Anagrama”, combina duas peças idênticas que se desenvolvem a partir de um eixo central. Tal como na literatura ou na escrita as formas repetem-se. Como que por oposição à anterior sugerindo de forma metafórica pares conceptuais.



"Anagrama"
2009
madeira e aço
100x350x100 cm.

Djed é o nome de um símbolo da civilização do Antigo Egipto associado à resistência e a estabilidade.Pode ser descrito como uma coluna com uma base larga que possuía na parte superior três ou quatro barras horizontais cruzadas. O significado exacto desta coluna é incerto. Tem sido proposto que seria uma árvore sem ramos, uma coluna obtida a partir de um feixe de canas ou um poste com cereal atado. De acordo com uma passagem do Livro dos Mortos o djed era a coluna vertebral do deus Osíris, divindade associada ao mundo dos mortos. Em virtude desta ligação a Osíris o djed poderia também ser representado com cabeça e braços, segurando nas mãos ceptros. Era por vezes pintado no interior dos sarcófagos, no local onde deveria repousar a coluna vertebral. Era também usado pelos egípcios como um amuleto (feito na maior parte dos casos em faiança), que se considerava importante no processo de transformação na forma espiritual que se teria no Além. A escultura “Djed”, propõe reinterpretar este símbolo do antigo Egipto, na sua morfologia. Removido do seu contexto, surge como uma forma abstracta, um tubo em aço e quatro discos em madeira radiando do interior.



"Djed"
2009
madeira e aço
250x95x95 cm.

“Aron”, palavra hebraica para arca, remete-nos para a arca bíblica construída por Moisés, segundo ordens divinas, onde ficaram guardadas as tábuas dos dez mandamentos, o maná e a vara de Aarão. Venerada pelos judeus, como objecto sagrado, até ao seu desaparecimento, a arca está rodeada de lendas e mistérios que nos fascinam desde sempre. Perdida ou procurada para sempre, a escultura “Aron” recria um elemento de dimensões simbólicas e espirituais, extensas. Aproximando-se das dimensões da arca bíblica, não pretende ser uma recriação literal, mas sim alegórica. Como uma “escultura hermenêutica”, “Aron”, interpreta um objecto que é testemunhado apenas pelos textos sagrados, apresentando-o à nossa compreensão de forma palpável.



"Aron"
2009
madeira e aço
66,6x300x90

Academia das Artes dos Açores
2 Julho 2009

quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

Random Lines


"Random Lines"
2008
madeira de Iroco
180x80x45 cm
Colecção Particular

Pormenor

quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Biografico

Daniel Oliveira

Nasceu nos Estados Unidos da América em 1975. Licenciado em Artes Plásticas – Escultura (Faculdade de Belas Artes de Lisboa, 2000). A sua produção artística tem vindo a ser desenvolvida de forma coesa e pessoal. Expondo desde a década de 90, tem participado em diversas exposições, dando a conhecer obras em diversos materiais e linguagens (ferro, vidro, madeira) onde a natureza abstracta e simbólica tomam forma, abordando áreas como a ciência, a alquimia ou a dimensão espiritual da obra de arte.

O predomínio de formas geométricas como pressuposto estruturante, criam um forte dialogo entre a sua obra e o espaço, fugindo à monumentalidade e aproximando-se da instalação. ComoJustificar completamente se pode verificar no projecto da exposição “Opus Magnum” (galeria franco steggink, Lagoa, 2002) caracterizando-se pela “linguagem abstracta e geométrica, contendo múltiplas referências a objectos primordiais do nosso imaginário, a determinadas formas e fórmulas puras que concebemos e que muito raramente encontramos. Uma espécie de orgânico quase impossível, mas que é esculturalmente realizável” (Eduardo Duarte, 2002).

“Poder-se-ia falar de alquimia? É o artista um alquimista? Em certos aspectos Daniel Oliveira o é, pois, ao tocar em matérias que à partida não seriam chamadas para o mundo da arte, transformou-as em símbolos, em objectos de culto”. “Emblemas” (galeria abraço; Lisboa, 2003) é apresentada uma série de esculturas mais intimistas, “onde entramos num mundo com objectos que são retirados não só do quotidiano, como também nos aparecem roubados à infância e ao mundo dos sonhos, como se fosse possível alguém entrar no nosso mais profundo ser e levar o que de mais precioso temos, construindo assim uma espécie de museu pessoal que poderia ser, no limite, o museu da humanidade”. (Marta Guerreiro, 2003)

A arte, como a religião e a filosofia, procura respostas, mas muitas vezes, o que acaba por encontrar são caminhos, fusões, espelhos. Uma tentativa de resposta ao que é a escultura, foi levada a cabo na exposição “Passagens” (Palácio dos Arcebispos, Loures, 2004). Evidenciando a relação simbólica da forma com o espaço e o contexto social, recorrendo, para tal, aos sólidos platónicos. Ainda que concebidas de forma autónoma, estas esculturas funcionam como um conjunto quer pela sua presença como pela sua lógica de ocupação dos espaços. Saindo da galeria, estas passaram a fazer parte do dia-a-dia de uma comunidade desabituada ao contacto com a obra de arte, interagindo e interrogando-a.

Com um percurso formal afastando-se do experimentalismo das vanguardas artísticas. A sua obra insere-se numa lógica de descoberta pessoal, onde os processos criativos e reflexivos serão chave determinante para a formalização do objecto escultórico.


Habilitações:
Pós-graduação: Gestão Cultural nas Cidades, I.N.D.E.G. / I.S.C.T.E, 2002-2003.
Licenciatura: Licenciatura em Escultura pela Faculdade de Belas Artes,

Universidade de Lisboa, 1995-2000.

Outras Habilitações:
1989 Academia das Artes de Ponta Delgada.
1994 Curso de Verão, Férias com Arte, Oficina d'Angra, Angra do Heroísmo.
1999 Seminário/Workshop, Arte e Comunicação de Valores Positivos, Org. Programa Vivendo
Valores Positivos e Org. Brahma Kumaris, Lisboa.


Prémios:
2000 Prémio de Escultura D. Fernando II / IV edição, Câmara Municipal de Sintra.
2003 2º Prémio no Concurso Internacional "3B Abstract", pelo "International Visual Art Community

Center" em Belgrado.

Exposições Individuais:
2009 Esculturas, Academia das Artes dos Açores, Ponta Delgada.

2005 Horta Contemporânea 2005, Sala de Exposições do Teatro Faialense, Horta, Faial.

2004 Essence, Galeria Mun. Pirescouxe, Loures.
2003 Emblemas, Galeria Abraço, Lisboa.

2002 Opus Magnum, Galeria Franco.Steggink, Lagoa, S. Miguel Açores.

2001 Dimensionality, Galeria Municipal de Fitares, C. M. Sintra.

Exposições Colectivas:
2007 Fast Forward’07, Academia das Artes dos Açores, Ponta Delgada.

2005 Passagens, Palácio dos Arcebispos, Santo Antão do Tojal, Loures.

2004 Marziart Inernational Galerie, Hamburgo, Alemanha.

2003 Comfio, Galeria Abraço, Lisboa.
3B Abstract Show, Galerija 73, Belgrado, Jugoslávia

2002 Exposição Cerâmica e Escultura, Painel de Aristas, Mercado da Ribeira, Cais do Sodré, Lisboa.
ArtExaq, Academia das Artes dos Açores, Ponta Delgada.
II Edição do Prémio de Escultura City Desk, Centro Cultural de Cascais, Cascais.
Três em Linha, Galeria Franco Steggink, Lagoa, S. Miguel Açores

2001 Exposição de Finalistas 2000, Arte na Fábrica, Fábrica da Cultura, Amadora.
Encontro Anual de Artistas Plásticos, Galeria Municipal de Fitares, C. M. Sintra.
Exposição Prémio D. Fernando II / V edição, C. M. Sintra.

2000 Jovens Artistas Açoreanos, Fundação da Juventude, Porto.
Escultura na Praça 2000, Sala do Risco, Lisboa.
Exposição do Prémio D. Fernando II / IV edição - Pintura e Escultura, C.M. Sintra.
Exposição do Grupo de Escultura 1.05, Galeria Municipal de Fitares, C. M. Sintra.
1999 Reconstructed Nature, Clube Residencial S. Miguel, Lisboa.
Cena d' Arte, Semana da Juventude'
99 C. M. Lisboa.
Exposição de apresentação Grupo de Escultura 1.05, Fac. de Belas Artes de Lisboa.

1998 Cena d'Arte, Semana da Juventude'98, C. M. Lisboa.
Referentes, Galeria Municipal de Arruda dos Vinhos.
Exposição Prémio D. Fernando II / II edição, C. M. Sintra.
ExpoArte 98, Odemira.
Chromium, Faculdade de Ciências e Tecnologia, U. Nova de Lisboa.
1997 Expoarte 97, Odemira.


Participações:
1998 - Mural sobre Os Oceanos, Expo98, Porta Sul.

Bibliografia:
BAJOUCA, Carlos
Cerâmica e Escultura, Painel de Artistas,
Sistema J. Editora Portuguesa de Livros,
Lisboa, 2002.

Prayer Wheel


“Prayer Wheel"

As Rodas de Oração, elemento originário dos templos e rituais de culto budistas no Tibete, são referente para a obra “Prayer Wheel”.

De acordo com as crenças budistas, fazer rodar uma roda de oração será tão eficaz como recitar um texto sagrado em voz alta. Esta crença deriva para os budistas do poder dos sons e formulas às quais divindades estão relacionadas. Esta é igualmente uma forma extremamente eficaz de oração para uma comunidade na sua grande maioria iletrada.

Geralmente de forma cilíndrica, em madeira e/ou bronze, estas rodas são ricamente adornadas e decoradas com mantras e símbolos budistas. Colocadas à entrada de recintos sagrados, fazem-se girar pela mão dos peregrinos, e em alguns casos pela força da água.

A obra “Prayer Wheel” consiste numa coluna formada por três secções cilíndricas em madeira com 100x120cm, sobrepostas e fixas por um eixo central e base em ferro. Cada secção terá movimento, gerado por um motor interno, os quais, ligados em sequência, farão girar cada um sobre o eixo de forma alternada. Tal como nas rodas de oração, aqui o movimento será induzido pelos observadores por intermédio de um sensor de presença.

A madeira utilizada na obra será a criptoméria, pelas suas qualidades simbólicas (no Japão, a madeira das árvores de criptoméria é utilizada na construção de templos, dada a natureza sagrada destas árvores).

Daniel Oliveira

2007


Emblemas




Emblemas

Nestes trabalhos Daniel Oliveira reinventa um mundo com objectos que são retirados não só do quotidiano, como também nos aparecem roubados à infância e ao mundo dos sonhos- como se fosse possível alguém entrar no nosso mais profundo se e levar o que de mais precioso temos, construindo assim uma espécie de museu pessoal que poderia ser, no limite, o museu da humanidade.

A arte, como a religião e a filosofia, procura respostas mas, muitas vezes, o que acaba por encontrar são caminhos, fusões, espelhos. A arte consegue dizer-nos o que por palavras nunca conseguimos explicar, porque os tesouros não se dizem e as palavras não chegam. Estes Emblemas lembram algo de religioso por se assemelharem a relíquias banhadas a ouro, o mais precioso e também o mais perfeito dos metais. Muitas vezes associado à luz (da qual possui brilho) tem carácter solar e até divino: tanto a carne dos deuses como a dos faraós egípcios é feita de ouro, os ícones de buda são dourados (como sinal de iluminação e perfeição absoluta). Por isso, ao serem minuciosamente forradas a folha de ouro, estes objectos transformaram-se em alvos de culto e ganharam uma simbologia própria.

Longinquamente lembrar-nos-iamos dos ready-made de Armanm ou os objectos prateados de Lourdes Castro, mas o que o escultor pretende mão é trazer para o espaço museológico peças que pertencem ao nosso quotidiano, mas sim torná-las em algo que jamais poderá fazer parte do nosso dia-a-dia. Estes Emblemas possuem – tal como é inerente à própria palavra – um sentido simbólico e alegórico que faz com que, de certo modo, vejamos neles algo de primordial: por um lado estes objectos pertencem-nos, por outro ele deixaram de ser nossos porque foram transformados em algo maior a que já não podemos aceder.

Poder-se-ia falar de alquimia? É o artista um alquimista? Em certos aspectos estou convicta de que Daniel Oliveira o é, pois, ao tocar em matérias que à partida não seriam chamadas para o mundo da arte, transformou-as em símbolos, em objectos de culto idênticos aos que seriam as relíquias de santos.

Num tempo em que a religião nem sempre se encontra presente a as relíquias são bens supérfluos e descartáveis, estes emblemas – a escada da ascensão, a árvore da vida – ganham uma aura e parecem poder ajudar-nos numa busca do que é realmente a essência da vida. Assim nos reencontramos e fazemos as pazes com o sagrado.

Marta Guerreiro 2003

Historia Arte



Opus Magnum


nigredo

albedo

A Madeira Circular

Algumas das peças de Daniel Oliveira, que conheço, têm o seu quê de nome próprio. Do apelido do próprio escultor. Pensamos que, não raras vezes, como que a genealogia e a etimologia se apresentam como duas faces de uma mesma moeda, ou, como preferem os escultores, da mesma medalha.
A sua linguagem abstracta e geométrica contém múltiplas referências a objectos primordiais do nosso imaginário, a determinadas formas e fórmulas puras que concebemos e que muito raramente encontramos. Uma espécie de orgânico quase impossível, mas que é esculturalmente realizável.
Os trabalhos que ora se apresentam, formalmente, remetem-nos para a pura forma circular. Para o círculo solar e lunar. A forma perfeita para o Homem do Renascimento. A própria Forma... As esculturas evocam pois a pureza formal e também o material da mesma - a madeira. Este material, antiquíssimo, é por si só escultoricamente puro. Pena que muitos hoje já não o entendam assim. A etimologia da palavra madeira vem do latim materia - matéria, princípio das coisas, matéria de que uma coisa é feita, materiais para um trabalho. Os sentidos figurados da palavra são igualmente estimulantes: matérias, assunto, tema, alimento, ocasião, pretexto; fontes, recursos do espírito; assunto tratado, questão, exposição.
A escultura sempre se fez em madeira. Em Portugal, sobretudo, de madeira e de barro, duas matérias primordiais e puras. O barro com que Deus fez o Homem e a matéria onde Cristo morreu, o lenho da cruz. A escultura em talha dourada é talvez antropologicamente a nossa verdadeira escultura.
Mas a madeira constitui ainda, na tradição ariana e indiana, a substância primordial que dá forma a todas as coisas - Brama; é ela própria a matéria-prima dos gregos (hylé). É um material protector, o lugar dos cultos benéficos das árvores e em última instância a matéria da Árvore da Vida, uma das metáfora recorrentes da Criação (como o Sol e a Lua).
Sol, Lua e Alquimia estão presentes no trabalho do escultor. Vejo igualmente nele troncos, árvores, bosques, florestas. Formas com vida (a madeira, ao contrário do barro e da pedra, tem circulação, seiva, vida) que esculpem a própria Luz. Essa deve ser a palavra chave de toda a exposição em vez dos sempre aborrecidos e estéreis "ismos", que muitos gostam de utilizar e de permanentemente tentar...
Um açoreano com nome de árvore abençoada, árvore de paz, de vitória, de alegria, de abundância, de pureza, de imortalidade, de virgindade, evoca nos seus objectos terrenos o que está no céu, provavelmente sobre os bosques verdes, como as suas Ilhas, numa metáfora e num discurso quase celta...


Eduardo Duarte
Prof. Fac. Belas Artes de Lisboa, 2002




rubedo

citrinitas

Passagens


dodecaedro

“A geometria já existia antes da criação das coisas, eterna como o espírito de Deus; é o próprio Deus e foi ela que deu os protótipos para a criação do mundo...”

(Johanes Kepler, 1619)

Numa concepção de Platão, supostamente baseada nas doutrinas secretas do antigo Egipto, as partículas mais ínfimas do universo são formadas por triângulos rectângulos. Estes, formando cinco corpos regulares, são as unidades básicas dos cinco elementos. Uma das salas do Palácio é decorada com painéis alusivos aos quatro elementos a às estações do ano. A arquitectura do lugar evidencia a importância dada aos elementos. Terra – pelos inúmeros espaços verdes; água – fonte monumental; poços e aqueduto; Ar – pombais e cata-vento; Fogo – organização dos espaços em função do sol.

Os sólidos platónicos eram tidos como símbolos demonstrativos das diferentes fases de desenvolvimento do ser na sua peregrinação pelo mundo. Por analogia, a Casa do Gaiato é igualmente um lugar de desenvolvimento do ser. Albergando crianças, oferecendo-lhes conforto material, emocional e espiritual. E aos adultos como local de encontro e diálogo. Esses referentes são ponto de partida para o projecto que desenvolvi para a exposição “Passagens”.

Daniel Oliveira
2005




Icosaedro